Eu vos dou a minha paz!

Dom Francisco Biasin
Bispo de Barra do Piraí-Volta Redonda (RJ)

O símbolo cristão da Páscoa, talvez o mais antigo, pois se encontra já nas catacumbas romanas, é a pomba com um ramo de oliveira! É também o símbolo universal da paz!

Ao se mostrar aos apóstolos na noite da Páscoa, Jesus os saudou com as Palavras: “A paz esteja convosco!” (Jo 20,19) Nós cristãos consideramos a paz fruto da sua entrega ao Pai por nós de forma plena e incondicional. Contra toda a lógica de poder, de vingança e de ódio, Jesus trouxe a paz porque preferiu deixar-se esmagar pelas forças do mal do que conceder uma brecha, por menor que fosse, ao espírito do mundo de seu tempo, alicerçado na dominação violenta do Império Romano e na exploração dos seres humanos mais fracos, até torná-los escravos. Por isso ele diz: “Eu vos dou a minha paz, não é à maneira do mundo que eu a dou!” (Jo 14,27)

Os impérios se sucederam na história, a humanidade superou a vergonha da escravidão, chegamos até a promulgar a Declaração universal dos direitos humanos, contudo a paz ainda está longe de reinar no mundo em que hoje vivemos! Novas formas de exploração e de escravidão se infiltraram nas sociedades modernas e pós-modernas (baste pensar no tráfico humano!) e a violência desgraça a vida de tantas pessoas e famílias.

No Brasil os fatos são alarmantes e as estatísticas estarrecedoras: no nosso país morrem mais pessoas atingidas por armas de fogo do que numa guerra no oriente médio. Há quem chegue a afirmar que aqui estamos vivendo uma velada ou disfarçada guerra civil.

“A violência apresenta-se das mais variadas formas: física, psicológica, institucional, sexual, de gênero, doméstica, simbólica, entre outras. Superar as várias faces da violência é uma tarefa de todos. Exige o compromisso de cada cristão e cristã no enfrentamento das múltiplas formas de ofensa à dignidade humana que se naturalizam escandalosamente na nossa sociedade.” (nota emitida na 86a Reunião Ordinária do Conselho Permanente Brasília – DF, 10 a 12 de março de 2015).

Por isso nós bispos do Brasil, convocamos todos os fiéis para um Ano da Paz! Com esta proposta, a Igreja no Brasil quer ajudar na superação da violência e despertar para a convivência mais respeitosa e fraterna entre as pessoas, pois a consciência de muitos está narcotizada ou paralisada, tornando-os incapazes de reagir, enquanto outros, entrando na lógica da violência, se defendem comprando e usando armas, acrescentando violência à violência. Por absurdo poderíamos dizer que para apagar o fogo, usam tanques de gasolina!

Não há momento melhor do que o tempo pascal para construir e vivenciar relações de paz. Gostaria então de apontar algumas atitudes a serem tomadas para que o propósito de viver a paz passe das boas intenções para atos concretos:

comece em casa: com gestos de compreensão, acolhimento e perdão, superando a rotina e vendo as pessoas que vivem com você com um olhar renovado e purificado: elas são um dom de Deus para você!
comece na sua comunidade eclesial: tenha atitudes de perdão, acolhimento e fraternidade. Acabe com atitudes de superioridade em relação aos outros, deixe espaço para outros assumirem os trabalhos junto com você. Afinal quem é membro da sua comunidade é seu irmão e sua irmã em Cristo Jesus.
comece na sua vizinhança: cumprimente e conheça os vizinhos, participe de encontros no seu condomínio ou no seu bairro e se torne presente em festinhas de confraternização. Não se deixe dominar por preconceitos, fique desarmado diante de quem você encontra e não julgue ninguém! Cada pessoa é vocacionada à paz!
não caia na lógica perversa da violência, evitando de usar palavras duras e ofensivas, de revidar às ofensas com ofensas ou de pagar com a mesma moeda, mas “vença o mal pelo bem!”(Rom 12,21)
use as “armas da paz”: a oração, o perdão, o sorriso aberto, a saudação fraterna, o aperto de mão, o abraço, a proximidade e a sensibilidade com quem sofre.
Assim podemos todos transmitir aquela paz que Cristo nos conquistou a caro preço, melhor ainda a transmitir a quem encontramos, sem rótulo, nem símbolos exteriores, o próprio Cristo que é a nossa paz! (cfr. Ef 2.14)

Feliz e Santa Páscoa!

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